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Torcida brasileira na Copa do Mundo 2018 não tem medo de ‘hooligans’ russos

Ultimamente, a área dos esportes na Rússia tem sido perseguida por azares de toda a espécie, cujo auge foi marcado por um grande escândalo de doping na véspera dos Jogos Rio 2016. Já agora, antes da Copa do Mundo de 2018 na Rússia, estão surgindo novas provocações. Sputnik Brasil fez questão de descobrir o que os brasileiros acham sobre o assunto.

Foi o contraditório documentário da eminente emissora britânica BBC “O Exército de Hooligans da Rússia” que recentemente tem provocado uma grande onda de discussões quanto à hipótese de a “festa de futebol” se tornar em uma “festa de violência”.Para muitos, o respetivo filme pareceu nada mais que uma tentativa de desacreditar o país e desencorajar os fãs da modalidade de viajarem longas horas para desfrutar da vibração esportiva coletiva. A Sputnik Brasil falou com jornalistas, coordenadores e torcedores brasileiros para saber como é que será organizada a torcida do país verde e amarelo na Rússia e se eles têm medo dos duros “hooligans” russos.

‘A gente não briga’: tradição pacífica da torcida brasileira

Em muitos países, sobretudo europeus, o maior apoio às seleções nacionais durante as grandes competições de futebol é dado pelos chamados ‘ultras’ — torcedores super ativos que viajam por todo o mundo e manifestam sua paixão pela equipe através das canções, pinturas corporais e foguetes lançados em pleno estádio.

Infelizmente, alguns deles ultrapassam os limites em seu apoio desenfreado e acabam se envolvendo em brigas e confrontos violentos com os simpatizantes de outras equipes: foi precisamente isso que aconteceu no verão de 2016 durante a Eurocopa na cidade francesa de Marselha entre os torcedores russos e britânicos, em opinião de muitos, por mera falta de segurança policial.

O Brasil, por sua vez, nunca na história da sua torcida chegou a formar um grupo considerável de torcedores aficionados pela Seleção, partilhou à Sputnik o jornalista esportivo e coordenador de reportagens especiais nos canais Turner (maior empresa de entretenimento da América Latina), Fred Soares.”A torcida brasileira em Copa do Mundo é bem diferente da torcida do dia-a-dia, do futebol local, dos campeonatos regionais. Aqui a gente tem muitos casos de violência ainda, infelizmente, mas ela não se compara à Europa, principalmente à Europa oriental, onde a gente tem aqueles casos dos ‘ultras’, que são torcedores muito mais radicais e que envolvem política e em muitos casos até a religião”, explicou.

Deste modo, se pode dizer que os fãs do futebol nacional brasileiro sempre ficaram afastados dos movimentos esportivos radicais de larga escala, porém, dentro de casa a respectiva “violência” floresce e, lamentavelmente, às vezes vai além dos limites.

“A gente tem uma rivalidade que se transformou em violência, mais é uma rivalidade entre clubes, basicamente. Dentro de casa e da região do Brasil. Temos uma rivalidade dos clubes de São Paulo, rivalidade dos clubes do Rio, rivalidade dos clubes do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, essas são as mais fortes”, comentou Fred Soares.

Em outras palavras, quanto se trata de grupos de torcedores pela Seleção, o perfil é completamente outro, contou o jornalista.

“Até por conta da questão econômica, fica muito difícil o deslocamento de um grande grupo de torcedores do Brasil”, explicou, adiantando que o negócio se complica ainda mais se falarmos dos lugares tão distantes como a Rússia.

“A gente não tem um perfil daquela torcida que se junta, que se aproxima, que seja hermana [unida] na Copa do Mundo. As pessoas vão em grupos completamente diversos, compram pacotes de viagem e vão assistir à Copa do Mundo como turistas”, adiantou.

Porém, há pouco apareceu um grupo organizado de torcedores — os Chapolins Brasileiros — que se viralizou nas redes e ficou conhecido devido à participação ativa nas Olimpíadas 2016 com uma torcida emocionante em várias modalidades, inclusive o futebol.

Grupo organizado de torcedores, os Chapolins Brasileiros, que se viralizou nas redes e ficou conhecido devido à participação ativa nas Olimpíadas 2016
© FOTO: FACEBOOK/CHAPOLINS BRASILEIROS – TORCEDORES
Grupo organizado de torcedores, os Chapolins Brasileiros, que se viralizou nas redes e ficou conhecido devido à participação ativa nas Olimpíadas 2016

A Sputnik falou com o criador da torcida dos Chapolins na Rio 2016, Rubens Tofolo, sobre a sua expectativa da Copa, dado que a sua viagem para a Rússia no ano que vem já esta agendada, e descobriu sua atitude para com a situação de violência entre os torcedores.

“A gente ouviu falar [do documentário da BBC], mas a gente não se mete muito nessas coisas. O nosso objetivo é torcer pelo Brasil, por esporte… A gente não é muito fã desta parte da briga, não tem muita ligação com qualquer questão da violência física ou psicológica”, expressou.

Os Chapolins Brasileiros que se viralizaram nas redes e ficaram conhecidos devido à participação ativa nas Olimpíadas 2016 com uma torcida emocionante em várias modalidades
© FOTO: FACEBOOK/CHAPOLINS BRASILEIROS – TORCEDORES
Os Chapolins Brasileiros que se viralizaram nas redes e ficaram conhecidos devido à participação ativa nas Olimpíadas 2016 com uma torcida emocionante em várias modalidades

“O esporte traz muitos benefícios, e não só no sentido social e cultural, mas a gente não pode confundir o esporte com guerra. Isso é muito importante, acho que o esporte pode ajudar as pessoas a não se distanciar. A gente não pode utilizar o esporte como arma da guerra”, assegurou Rubens, médico na sua vida e grande amador de esporte brasileiro.

Hooligans russos é apenas pesadelo delirante da mídia ocidental?

Pela natureza bem pacífica da sua torcida, o Brasil nunca se envolveu muito em discussões e confrontações de escala mundial em relação ao assunto. Porém, muitos dos nossos entrevistados, sejam apenas amadores de futebol ou aqueles que se debruçam diariamente sobre tudo ligado à modalidade, ouviram falar do repercutido filme britânico.

De fato, a situação nas grandes mídias em torno da futura Copa de 2018 apresenta algumas semelhanças com a das Olimpíadas do Rio de Janeiro, já que na época muitos meios de comunicação, com efeito, insistiam em retratar a “cidade maravilhosa” como apenas um baluarte de criminalidade e violência sem se focarem muito em pontos positivos.”Concordo completamente que se criou uma imagem do Rio de Janeiro muito negativa. Claro, muita coisa era verdade. Realmente, a violência no Rio de Janeiro é bem intensa. Mas ela não chega a ser desesperadora e, na verdade, em todas as vezes quando o Brasil se envolveu em grandes eventos, e foram alguns ao longo das ultimas décadas, o Brasil conseguiu resolver muito bem essa questão [de segurança]”, opina Fred Soares, traçando um paralelo entre os ataques midiáticos contra ambos os países na véspera de uma grande competição.

Além disso, se cria uma impressão que no caso da Copa russa, surge um fenômeno parecido, especialmente em relação ao filme que retrata a Rússia como um país bravo e duro, pouco capaz de acolher os estrangeiros de modo hospitaleiro, se baseando em apenas um acidente que se deu há quase um ano na cidade francesa de Marselha.

“Em relação a uma torcida russa, pelo menos aqui, não chegou muita informação a respeito de violência em relação à torcida. Porque é uma torcida até, de certa forma, pacífica que nunca criava muitos problemas, aqueles problemas de que a gente ouvia falar na Europa, por exemplo, com os hooligans da Inglaterra, com o pessoal da antiga Iugoslávia, que também era bem grave, na Romênia também, na própria Itália, onde o pessoal tem uma ligação até neofascista […]”, afirmou o repórter.

Quanto aos torcedores britânicos, retratados no documentário da BBC como vítimas dos “hooligans” da Rússia, a impressão geral é bem contrária.

“Olha só, eu já cobri cinco Copas do Mundo, de 98 para cá. […] Em todas essas Сopas, existia uma preocupação de cada um desses países em relação aos hooligans. E a gente percebia que os hooligans sempre vinham com uma predisposição para uma briga, para uma confusão. A alta repressão que eles têm dentro da Inglaterra, e na Inglaterra eles realmente são muito reprimidos e com razão, eu acho que acaba criando uma espécie de demanda reprimida que eles tentam soltar, colocar para fora, exatamente nesses períodos — da Eurocopa e da Copa do Mundo”, analisa o jornalista brasileiro, frisando que a torcida britânica (diferentemente da russa e brasileira) teve problemas na França em 1998, no Japão e Coreia do Sul em 2002, na Alemanha em 2006 e “ensaios” de problemas na África do Sul em 2010.

Outro interlocutor da Sputnik Brasil, professor e grande amador de futebol, o flamenguista Alcides da Veiga, partilhou suas impressões fantásticas da interação com os torcedores russos que ele teve durante a Copa de 2014 no Brasil.”A minha impressão foi a melhor possível. Eu não consegui nenhum jogo da Copa do Mundo, infelizmente, mas acompanhei muito isso, e eu moro numa região que é a região turística do Rio de Janeiro, digamos assim. […] Por isso eu consegui, pelo menos, interagir com alguns torcedores, inclusive alguns russos também. Tive ótimas impressões”, afirmou, adiantando que as pessoas brasileiras têm muita semelhança na mentalidade com os russos pela “paixão” e hospitalidade, sendo que ambas as nações “carregam bandeiras do seu país como se fosse um pedaço do seu corpo”.

Apesar das provocações, expectativas continuam boas

Sem dúvida, as ações midiáticas como estas têm certo potencial de abalar as intenções das pessoas para viajarem a outros países, pelo medo ou pela falta de sentimento de segurança. Porém, as expetativas dos torcedores estrangeiros continuam otimistas: poucos, na verdade, veem alguma ameaça pendente de erupção violenta na Copa do Mundo de 2018.

A Sputnik conversou com Eduardo Gaspar, ex-jogador brasileiro e atual coordenador técnico da Seleção Brasileira de Futebol, que chegou a Moscou há poucos dias para lidar com os últimos preparativos do evento.

Edu Gaspar, ex-jogador brasileiro e atual coordenador técnico da Seleção Brasileira de Futebol
© AFP 2017/ ANTONIO SCORZA
Edu Gaspar, ex-jogador brasileiro e atual coordenador técnico da Seleção Brasileira de Futebol

“Na verdade, a nossa equipe da CBF [Confederação Brasileira de Futebol] já foi três vezes para a Rússia. Esta já é a quarta vez, justamente para ver todos os detalhes, do centro de treinamento, do hotel, conhecer um pouco mais da cidade, de deslocamentos. […] Ou seja, fazer tudo para que a Seleção brasileira seja bem atendida na Rússia”, conta Edu, que encabeça a delegação brasileira da CBF na Rússia.

“A expectativa é a expectativa […] de grande evento, de jogos, de jogar contra grandes seleções, uma expectativa muito parecida com a de todas… que o Brasil possa sair, fazer um grandíssimo papel em todos os sentidos, no sentido de organização, de comportamento, de resultado, de treino no campo”, partilhou o Edu. “A expectativa é ótima: de um grande evento num país onde nós vamos ter uma diferença cultural e principalmente para nós, os brasileiros, que estão tão acostumados a sair, conhecer a Rússia, será uma grande oportunidade também de conhecer um país que tem tanta coisa bonita, tantas cidades bonitas”, afirmou o ex-craque brasileiro.

Fred Soares, por sua vez, afirmou que em grande parte, a segurança em eventos como este se garante pelo trabalho dos serviços de inteligência dos países-anfitriões, iniciado ainda na fase de concessão de vistos, e, na opinião do jornalista, as entidades russas farão todos os procedimentos necessários para organizar a estadia dos torcedores estrangeiros de maneira segura e calma.

A Sputnik Brasil conversou também com Marcelo Conti, administrador empresarial e grande fã de futebol, que é um daqueles torcedores brasileiros que se juntam em grupos de amigos e viajam por todos os cantos do mundo para apoiar sua Seleção, e descobriu que ele já tem uma viagem para a Rússia planejada que não pensa cancelar.”Existe uma preocupação, principalmente da família. […] Vou me informar e estudar um pouco mais do assunto. Certamente, isso não vai afetar a minha decisão de viajar ou não. Pode mudar o meu comportamento no decorrer da viagem, só isso, mas provavelmente isso não muda a minha decisão de ir à Copa”, manifestou.

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